sexta-feira, 4 de março de 2011

2º Domingo da Quaresma - Ano A


Refletindo o Evangelho do Domingo

Pe. Thomaz Hughes, SVD


SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA - Ano A


Mt 17, 1-13

“Este é o meu Filho amado, que muito me agrada”


Oração do dia

Ó Deus, que nos mandastes ouvir o vosso Filho amado, alimentai nosso espírito com a vossa palavra, para que, purificado o olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão da vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

EVANGELHO (Mateus 17,1-9)
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus
Naquele tempo, 17,1Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. 2E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. 3Nisto apareceram-lhe Moisés e Elias, conversando com Jesus. 4Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. 5Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!” 6Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. 7Jesus se aproximou, tocou neles e disse: “Levantai-vos e não tenhais medo”. 8Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. 9Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”.
- Palavra da Salvação.

COMENTÁRIO
Esse trecho vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos sobre quem era Jesus e como deveria ser o seu seguimento: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (Mt 16, 24). Começando a passagem com as palavras “seis dias depois,” Mateus quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior sobre a cruz.
Neste momento Jesus “subiu à montanha” (v. 1), e aparecem Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas. Assim, Mateus mostra que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isto é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos no seu tempo - Mateus aqui vislumbra o destino de Jesus, de ser rejeitado, mas também de ser reivindicado por Deus. E Pedro faz uma sugestão descabida: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para Ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 4). Claro, era bom ficar ali, num momento místico, longe do dia-a-dia, da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta. Quem não iria querer? Mas, não é uma sugestão que Jesus pudesse aceitar. Terminado o momento de revelação, Jesus estava sozinho, e “desceram da montanha” (v. 9). Por tão gostoso que pudesse ser ficar no Monte Tabor, era preciso descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário! A experiência da Transfiguração está intimamente ligada com a experiência da cruz! Quem sabe, talvez a força da experiência do Tabor desse a Jesus a coragem necessária para aguentar a experiência bem dolorida do Calvário!
É interessante que a Exortação Apostólica “Vita Consecrata” usa a imagem da Transfiguração como paradigma para a vida consagrada - mas, por extensão, também serve para a vida cristã de todos os batizados. O Papa João Paulo II sugere que os religiosos (as) - e aqui aplicamos a todos os cristãos - devem subir Monte Tabor para serem transfigurados, para depois descerem para “lavar os pés” dos irmãos e irmãs! Uma linda imagem! Todos nós - seja qual for a nossa vocação - precisamos de momentos de oração profunda, de união especial com Deus. Mas, estas experiências não são “intimistas” - nos aprofundam a nossa fé e o nosso seguimento, para que possamos seguir o exemplo d’Ele que lavou os pés dos discípulos: “Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14).
Também este trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”, os momentos de paz, de reflexão, de oração. Pois, se formos coerentes com a nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência de “Calvário”! E somos fracos demais para aguentar esta experiência - por isso busquemos forças na oração, na Palavra de Deus, na meditação, - mas sempre para que possamos retomar o caminho, como fizeram Jesus e os três discípulos! E para os momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, através da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho, que muito me agrada. Escutem o que ele diz!” (v. 5). Façamos isso, e venceremos os nossos Calvários!


1º Domingo da Quaresma - Ano A


Refletindo o Evangelho do Domingo

Pe. Thomaz Hughes, SVD

PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA - Ano A


Mt 4, 1-11

 

“Não só de pão vive o homem”



Oração do dia


Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo desta Quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Evangelho - Mt 4,1-11

+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 4,1-11

Naquele tempo: 4,1o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. 2Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome. 3Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: 'Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!' 4Mas Jesus respondeu: 'Está escrito: 'Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus'.' 5Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, 6e lhe disse: 'Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: 'Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'.' 7Jesus lhe respondeu: 'Também está escrito: 'Não tentarás o Senhor teu Deus!'' 8Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, 9e lhe disse: 'Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar.' 10Jesus lhe disse: 'Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: 'Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto.' 11Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus. Palavra da Salvação.

COMENTÁRIO

Os três Sinóticos contam a história das tentações de Jesus logo depois do Batismo - Marcos de uma forma resumida, Mateus e Lucas de uma maneira mais elaborada. Devemos lembrar que estes relatos procuram expressar uma experiência interior de Jesus, e não devem ser interpretados ao pé da letra, de uma maneira fundamentalista. Ligando as tentações ao batismo de Jesus, os evangelistas frisam que a sua experiência é como a nossa própria experiência - nós também temos compromisso com o projeto de Deus, individual e comunitariamente; mas, entre o nosso compromisso e a sua concretização de uma maneira coerente com o seguimento de Jesus, existem muitas tentações, que exigem discernimento!
            O texto diz que Jesus era “conduzido pelo Espírito ao do deserto” (v. 1). O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas O acompanha nas tentações. E como o Espírito Santo não O abandonou no momento de crise, mas lhe dava força, tampouco vai nos abandonar nos momentos de crise e discernimento.
            O início das tentações se dá no deserto. Mateus quer evocar a experiência de Israel, pois para ele Jesus era o Novo Moisés, e a Igreja o Novo Povo de Deus; e, podemos lembrar que no deserto, Moisés e o povo foram tentados e sucumbiram – mas, Jesus é tentado e vence!
            Olhando bem as tentações, podemos encontrar nelas três grandes tentações da época pós-moderna, também para a vida cristã: as do “Ter”, do “Poder” e do “Prazer”. As tentações de Jesus não são para coisas que são más em si, mas que causariam desvios do plano do Pai. Não é diferente com a vida cristã hoje - raramente somos tentados a assumir algo mau em si; mas, sim, a fazer opções para coisas boas, mas que seriam incoerentes com o projeto de Deus para nós! A tentação vem de forma sutil, disfarçada - vale notar que nas três tentações o diabo não nega a identidade e missão de Jesus, mas a confirma “Se és Filho de Deus”. Também, para nós, a tentação pode se apresentar como algo que não nega a nossa identidade cristã, mas que é condizente com ele, enquanto na verdade não é. Por isso, a necessidade da “vigilância”, para não cairmos em tentação, uma advertência constante dos evangelhos. Quaresma pode ser tempo privilegiado deste discernimento individual e comunitário.
            Primeiro, Jesus era tentado a mandar que uma pedra se tornasse pão. Jesus veio para doar-se como o Servo de Javé - mas logo, no momento do primeiro sacrifício por causa da sua opção, ele é tentado a esquivar-se! É a tentação do “prazer” hoje - entre as mais comuns, em um mundo que prega a satisfação imediata dos desejos, uma sociedade que cria necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda. Estamos em uma sociedade de individualismo, onde a regra dominante é “se deseja, faça!” Uma sociedade onde o sacrifício, a doação e a solidariedade são considerados como a ladainha dos perdedores! As consequências dessa visão são bem exploradas como tema da Campanha da Fraternidade deste ano - a destruição do Planeta e da vida que existe nele. Jesus não cai na tentação - a resposta de Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem” (v. 4). Jesus enfrenta essa tentação - e as outras - com citações tiradas de Dt 6-8, que versam sobre a primazia da Palavra de Deus como o alimento do seu povo na caminhada. Jesus aqui dá o verdadeiro sentido do seu jejum - Deus é o único sustento da verdadeira vida. Ele, possuído pelo Espírito de Deus, confia no seu Deus para sustentá-lo. A obediência de Jesus como Filho e Servo (Hb 5, 7-8), simbolizada pelo jejum, é agora verbalizada. Jesus confia que o seu Pai vai sustentá-lo em todos os seus sofrimentos e tribulações, provenientes de uma vida coerente com a sua vocação. Uma bela lição para nós, nos momentos difíceis da nossa caminhada cristã!
A pessoa humana, para Jesus, vive certamente de pão - mas não só! Jesus não é sádico nem masoquista, contra o necessário para uma vida digna. Salienta muito bem que não é somente a posse de bens (simbolizados pelo pão) que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a fidelidade à vontade de Deus, a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso entre bens materiais e espirituais - precisamos de ambos para que tenhamos a vida plena! Com esta frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade e a solução dos problemas do mundo na simples satisfação das necessidades materiais, como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos - duas tendências não ausentes entre nós cristãos.
            A segunda tentação é de confiar no poder - fazer milagre diante de milhares, para demonstrar o seu poder. A tentação do poder é tremendamente insídia em nós, na sociedade e nas Igrejas. Há mais de um século, um estadista e historiador católico inglês, Lord Acton, advertiu que “todo o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente!” Jesus veio como Servo, assumiu a missão do Servo de Javé, mas é tentado a confiar mais no poder, no extraordinário, e não no Deus Libertador e nos pobres e humildes. Quantas vezes a Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade da Cruz, para “evangelizar”! Quanta aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que o diga! E continua corrente esta tentação - de confiar mais nas concentrações nos estádios cheios, com “milagres” e “prodígios”, do que nos grupos pequenos e humildes das comunidades cristãs, dirigidos por pessoas simples, sem pretensões, espalhados pelo Brasil afora! Somos todos capazes de cair nesta tentação - não a de ter o poder para servir, mas de confiar no poder deste mundo, aparentemente mais forte e eficaz do que a fraqueza de Deus, assim contradizendo o que Paulo afirmava com força “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 25) e ainda: “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte” (1Cor 1, 27). Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve que clarificar a sua vocação e despachar o diabo, o tentador, com a frase “Não tente o Senhor seu Deus!” (v. 7)
A terceira tentação pode ser vista como a do “ter”. Não que o dinheiro seja algo ruim - sem ele não se vive! Torna-se um mal quando chega a ser um ídolo - a fonte de nossa auto-suficiência! É ruim quando se fundamenta a vida sobre ele. Jesus não é tentado a ser um ricaço - mas é tentado no sentido de fugir da sua vocação de ser o messias dos pobres, tão esperado pelos “anawim”, os pobres de Javé, e profetizado por Segundo-Isaías, Zacarias e Sofonias. É tentado a acreditar mais no poder da riqueza do que na pobreza dos seus futuros discípulos de Galiléia.
 De novo, algo muito semelhante com a nossa situação atual. Nós temos que viver o nosso compromisso no mundo pós-moderno da globalização do mercado, do neo-liberalismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente, os meios da comunicação de massa trazem para dentro das nossas casas - inclusive casas religiosas - a mensagem de que é necessário “ter mais”, e não importa “ser mais!” Como sempre, a tentação vem de forma atraente - até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que poderão ser usados em favor da missão, garantirá uma ação mais evangélica. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres e simples, de não seguir as pegadas do carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes nós somos tentados a confiar no poderio do dinheiro, como se a compra de instrumentos e aparelhos cada vez mais sofisticados garantisse a evangelização. É certo que devemos utilizar o que a ciência moderna nos providencia, mas, sem confiar nisso como o fundamento da nossa missão. Jesus enfrentou essa mesma tentação - Ele que veio para ser pobre com os pobres, para manifestar o Deus que opta preferencialmente por eles, é tentado a confiar nas riquezas. Para o diabo - e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas da justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a Ele servirá” (v. 10)
            Realmente, podemos nos encontrar nas tentações de Jesus. O “ter”, o “poder” e o “prazer” são coisas boas, quando utilizados conforme a vontade de Deus, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossa vida! Jesus teve que enfrentar o que nós hoje enfrentamos - o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação de discípulos. O texto nos coloca diante da orientação básica para quem quer ser fiel à sua vocação cristã: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a Ele servirá” (v. 10)
            O texto nos ensina que Jesus, Filho e Servo, vencerá a hostilidade à sua missão pela sua fé obediente, e libertará as pessoas dominadas pela força do mal. Mas, a tentação não era de um momento só - voltará mais vezes na vida de Jesus, como na nossa. Aparecerá de novo no caminho de Cesaréia de Filipe, no Horto das Oliveiras e especialmente na Paixão - a suprema investida do diabo! Diante das várias opções disponíveis, diante dos diversos modelos de messianismo, Jesus teve que discernir a vontade do Pai. É o desafio da vida cristã hoje.


QUARESMA - Ano A



Refletindo o Evangelho do Domingo

Pe. Thomaz Hughes, SVD




1º Domningo da Quaresma - Ano A
2º Domningo da Quaresma - Ano A
3º Domningo da Quaresma - Ano A
4º Domningo da Quaresma - Ano A
5º Domningo da Quaresma - Ano A
Domingo de Ramos - Ano A
Preparar a Páscoa do Senhor


ADVENTO E NATAL - Ano A


- Domingos - Ano B
- Domingos - Ano C


Dias da Semana - Frei Carlos Mesters, O.Carm.

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9º Domingo Comum - ano A

Refletindo o Evangelho do Domingo

Pe. Thomaz Hughes, SVD

NONO DOMINGO COMUM


Mt 7, 21-27

 

“Só entrará no Reino do Céu quem põe em prática a vontade do meu Pai”


O texto de hoje conclui o grande discurso da vida cristã que é o Sermão da Montanha. Depois de dar-nos as orientações para uma vida de seguimento e discipulado, Jesus termina insistindo na necessidade de a nossa fé nos levar à prática das obras do Reino de Deus. Não adianta uma fé que consiste somente em adesão intelectual às verdades sobre Jesus, pois é necessária uma fé que nos leve a construir a “justiça do Reino” na nossa sociedade. A Carta de Tiago vai retomar esse tema quando o autor escreve que “fé sem obras, é morta em si mesma” (Tg 2, 17).
            O texto se divide em duas partes - a primeira, vv. 21-23, adverte contra uma religião, mesmo no nome do seguimento de Jesus, que não compromete com a luta em favor da justiça. Parece que na comunidade de Mateus, por volta do ano 90, havia uma tendência entre alguns de invocar o nome de Jesus, profetizar, fazer milagres, expulsar demônios, e ir atrás de manifestações extraordinárias do Espírito, sem que se comprometessem com a construção do Reino da Justiça. As palavras de Jesus para essas pessoas soam duras - chama-as de malfeitores, pois não se empenham na realização do projeto d’Ele, se vangloriam dos seus milagres e dons, que chamam a atenção, mas não brotam de uma vida de comprometimento com o Reino de Deus.
É atual esta advertência do texto, pois hoje em dia também muitas vezes existe a tendência de buscar uma religião de “sinais” e “milagres”, de manifestações aparentemente milagrosas do Espírito, mas que frequentemente esconde uma opção religiosa individualista e intimista, sem consequências para a construção da sociedade que Deus quer. Assim, a religião torna-se alienada e alienante em lugar de ser expressão de discípulos/as que são fermento na massa, sal da terra, luz do mundo.
A segunda parte do texto, vv. 24-27, usa uma imagem bastante comum na Palestina de Jesus - as enchentes repentinas que resultavam das chuvas torrenciais da época do inverno, e que causavam estragos nas vilas e roças. Uma imagem, aliás, muito fácil a compreender no Brasil do nosso tempo, visto a frequência de desastres ligadas à questão de inundações. Usa a imagem da construção de casas - uma feita com alicerce, outra sem. De fato, a falta de um alicerce firme não se faz sentir no tempo de bonança. As construções parecem igualmente sólidas. Mas, na tempestade, nas enxurradas e enchentes, logo se revela qual é a casa com alicerce, e qual carece de um fundamento sólido. É nessa hora que se revela tudo. Assim também com a vida cristã - enquanto tudo corre bem, não se manifesta a presença ou a falta do alicerce. Mas, quando batem as ventanias da vida, quando acontecem as enxurradas que ameaçam levar embora o que nós construímos, então se revela a presença ou a ausência de um alicerce. Isso pode acontecer no casamento, na vida religiosa e sacerdotal, no empenho pastoral. Enquanto tudo corre bem, não há problema. Porém, é só uma vida com fundamento forte que resistirá às pressões dos contratempos da caminhada! Mateus deixa bem claro o que deve ser o alicerce de uma vida cristã - Jesus e o seu projeto de vida, manifestado nas palavras do Sermão da Montanha. Uma vida cristã, uma vida missionária, uma vida religiosa construída sobre qualquer outro alicerce, está condenada a desmoronar. Paulo, mais tarde, advertirá a elite da comunidade de Corinto, tentada a substituir Jesus com a filosofia grega “que ninguém ponha outro fundamento a não ser aquele que já foi posto, Jesus Cristo” (1Cor 3, 11).
Portanto, somos convidados a fazer uma revisão honesta e sincera da nossa vida, em todos os sentidos. Qual é o alicerce sobre o que construo a minha vida - sobre algo movediço, que não resiste à prova do tempo e do desgaste diário, ou sobre o único alicerce que é rocha firme, inabalável e permanente - Jesus de Nazaré, e o seu projeto do Reino. A minha religião se baseia só no ouvir e no falar, ou me leva a um engajamento real para que o mundo se torne aquele que Deus sonha? O texto de hoje reforça uma outra frase lapidar do Sermão: “Se a justiça de vocês não for maior do que a dos escribas e fariseus, não entrarão no Reino dos Céus” (Mt 6, 20).
Fortaleçamos o alicerce da nossa vida cristã, fundamentando-a cada vez mais em Jesus e nas suas palavras, para que possa aguentar as enxurradas, enchentes e ventanias que a vida traz. Outro caminho é receita para o desastre!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tempo Comum - ano A


Dias da Semana - Frei Carlos Mesters, O.Carm.

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8º Domingo Comum - Ano A

Refletindo o Evangelho do Domingo

Pe. Thomaz Hughes, SVD

OITAVO DOMINGO COMUM





Mt 6, 24-34



“Ninguém pode servir a dois senhores”



Oração do dia

Fazei, ó Deus, que os acontecimentos deste mundo decorram na paz que desejais, e vossa Igreja vos possa servir, alegre e tranqüila. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Evangelho - Mt 6,24-34

+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 6,24Ninguém pode servir a dois senhores: pois, ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. 25Por isso eu vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida, com o que havereis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, com o que havereis de vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento, e o corpo, mais do que a roupa? 26Olhai os pássaros dos céus: eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em armazéns. No entanto, vosso Pai que está nos céus os alimenta. Vós não valeis mais do que os pássaros? 27Quem de vós pode prolongar a duração da própria vida, só pelo fato de se preocupar com isso? 28E por que ficais preocupados com a roupa? Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. 29Porém, eu vos digo: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. 30Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, não fará ele muito mais por vós, gente de pouca fé? 31Portanto, não vos preocupeis, dizendo: O que vamos comer? O que vamos beber? Como vamos nos vestir? 32Os pagãos é que procuram essas coisas. Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso. 33Pelo contrário, buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. 34Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia, bastam seus próprios problemas.' Palavra da Salvação.


COMENTÁRIO

O texto de hoje nos mergulha de novo no espírito do Sermão da Montanha (Mt 5, 1 - 7, 27). Coloca os ouvintes diante da sua escolha fundamental na vida - a quem ou a que querem servir? - a Deus, vivendo os valores delineados no Sermão da Montanha, ou o Dinheiro, (que a Bíblia TEB escreve com “D” maiúsculo), ou seja, o Dinheiro como potência que escraviza o mundo a si? Embora essa escolha seja exigência de todos os tempos e lugares, torna-se mais urgente ainda em nossa sociedade de consumo, de exclusão e de acumulação, que exclui a maioria absoluta da humanidade, condenando-a a uma vida de miséria e sofrimento. Jesus deixa bem claro que os seus discípulos/as não podem assumir esses valores consumistas e materialistas, se querem ser fiéis a Ele e ao seu projeto do Reino de Deus.
Como conseqüência desse princípio, Jesus continua: “por isso é que lhes digo: não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir”. Com certeza uma declaração que soa como estranha a quase todos nós, obrigados a lutar com insegurança para que as nossas famílias tenham o que comer e vestir. Como não se preocupar com essas coisas em um mundo de insegurança, de desemprego, de exclusão? Realmente seria no mínimo uma falta de sensibilidade proclamar aos famintos ou esfarrapados que não era para se preocuparem com a comida e a roupa. Ë só olhar a situação terrível de tantas famílias na região serrana de Rio de Janeiro, entre outras.  Então o que quer dizer esse trecho?
Essas palavras não são convite a descuidar dessas necessidades básicas, que seria um atentado contra a vida, e, portanto, contra a proposta de Jesus. A frase deve ser entendida no contexto da situação da comunidade mateana pelo ano 85 dC, que parece ter sido uma comunidade que tinha bastante gente próspera (p. ex., Mateus diz que são os “pobres em espírito” que são bem-aventurados, enquanto Lucas diz simplesmente “vocês, os pobres”!). O sentido do texto gira ao redor do sentido do verbo grego “meirmnao” que as nossas Bíblias traduzem como “preocupeis” (Pastoral, TEB, Jerusalém, Ave Maria). Isso, obviamente, não quer dizer não cuidar, zelar, ocupar-nos, mas não deixar que essas coisas nos absorvam de tal maneira que se tornem o absoluto da nossa vida. Assim, em lugar de usar essas frases para acalmar os que sofrem falta dessas necessidades da vida, esse texto implica uma denúncia de uma sociedade excludente como a nossa, que obriga a maioria das pessoas a dedicar-se totalmente à sobrevivência, esgotando as suas forças físicas, espirituais e psicológicas na luta diária para simplesmente sobreviver nesse mundo cruel. Seria beirando a blasfêmia usar essas frases para apaziguar os sofridos, falando chavões sobre a providência de Deus, enquanto apoiamos e nos mergulhamos nos valores materialistas da sociedade neoliberal, sem notar que essa mesma sociedade é a negação de tudo que o Sermão da Montanha ensina sobre simplicidade, solidariedade, justiça e o seguimento de Jesus. A chave da interpretação do ensinamento de hoje está em v. 33: “Procurai primeiro o Reino e a justiça de Deus, e tudo isso vos será dado por acréscimo” (trad. TEB). Pois, se criarmos um mundo ou uma comunidade que vive os valores do Reino e a justiça de Deus (não o que os homens consideram “justiça” a partir de uma ideologia positivista que favorece os interesses da minoria dominante), então teremos solidariedade, que garantirá que todos tenham pelo menos o mínimo para ter uma vida digna dos filhos e filhas de Deus.
Então, longe de ser “pano quente”, para que possamos ignorar com tranqüilidade o sofrimento e carência de tantos, o texto nos desafia para que descubramos sinceramente quais são os nossos valores, os do Evangelho ou os do consumismo. É uma questão vital para todos e todas que querem ser seguidores/as de Jesus, pois “onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração” (Mt 6, 21).


7º Domingo Comum - Ano A

Refletindo o Evangelho do Domingo

Pe. Thomaz Hughes, SVD


SÉTIMO DOMINGO COMUM

Mt 5, 38-48

“Sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu”


ORAÇÃO DO DIA
Concedei, ó Deus todo-poderoso, que, procurando conhecer sempre o que é reto, realizemos vossa vontade em nossas palavras e ações. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

EVANGELHO
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 5,38-48
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 38Vós ouvistes o que foi dito: 'Olho por olho e dente por dente!' 39Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda! 40Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto! 41Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele! 42Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado. 43Vós ouvistes o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!' 44Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! 45Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos. 46Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? 47E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito.'
Palavra da Salvação.


COMENTÁRIO
Na verdade, o texto de hoje, continuando as leituras do Sermão da Montanha (Mt 5-7), continua o tema da leitura do domingo passado.  Mais uma vez enfatiza que atrás de todas as nossas ações existem sentimentos, ou disposições, internos.  Por isso Jesus dá o verdadeiro sentido à Lei, dizendo que o discípulo não pode se contentar em não agir mal, mas tem que mudar a sua maneira de entender o mundo, as pessoas e às relações.  Com autoridade, “Eu digo”, ele exige que os seus seguidores não somente não agem como o mundo age, mas que dão uma vira-volta nos valores dele.  Enquanto “olho por olho, dente por dente” era, nos tempos idos, um grande avanço sobre a lei da vingança exagerada, Jesus exige que os seus discípulos vão adiante, tirando até o desejo de vingança e retribuição, assim desarmando o mal e criando uma sociedade de novas relações.  Sem dúvida, uma visão utópica, mas utopia não é ilusão, mas o ideal que nos norteia e encoraja até que finalmente, passo por passo, ela se concretize.
Esses versículos insistem que o modelo para a vida cristã e as suas atitudes não é a sociedade vigente, onde cristãos muitas vezes se contentam em agir exatamente como outros, dentro do que é aceitável em uma sociedade que não segue o Evangelho.  Ele insiste nesses versículos que ser cristão não é simplesmente ser como qualquer um (“os pagãos"), mas é ter outros valores e uma outra visão.  E qual é o fundamento desses valores, desse modo de agir?  Não é o exemplo da sociedade e do mundo, mas o exemplo do nosso Pai.  Jesus não deixa por menos “sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu”.  Obviamente nunca poderemos ser “perfeitos” como o Pai do céu.  Essa frase relembra Dt 18,13 onde a Lei recomenda ao povo de Israel que seja perfeito na sua adesão ao Senhor.  O Evangelho de Lucas explicita melhor ainda o sentido desse frase quando ensina “sejam misericordiosos, como também o Pai de vocês é misericordioso” (Lc 6,36).
Sem rodeios, esses versículos nos levam a examinar as nossas atitudes e ações, especialmente em relação à vingança, o ódio, à dureza de coração, à compaixão e à misericórdia.  A nossa medida nesses aspectos, é a nossa sociedade, ou o nosso Pai?  Se nós agimos e pensamos como qualquer outro, o que fazemos de extraordinário?