Refletindo o Evangelho do Domingo
Pe. Thomaz Hughes, SVD
QUARTO DOMINGO DA QUARESMA - Ano A
Jo 9, 1-41
“Eu sou a luz do mundo”
Oração do dia
Ó Deus, que por
vosso Filho realizais de modo admirável a reconciliação do gênero humano,
concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam cheio
de fervor e exultando de fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na
unidade do Espírito Santo.
Evangelho - Jo 9,1-41
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo † João 9,1
Naquele
tempo: 41,1Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. 2Os
discípulos perguntaram a Jesus: 'Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele
ou os seus pais?' 3Jesus respondeu: 'Nem ele nem seus pais pecaram, mas
isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele. 4É
necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem
a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5Enquanto estou no mudo, eu
sou a luz do mundo.'
6Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a
saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. 7E disse-lhe: 'Vai
lavar-te na piscina de Siloé' (que quer dizer: Enviado). O cego foi, lavou-se e
voltou enxergando. 8Os vizinhos e os que costumavam ver o cego -
pois ele era mendigo - diziam: 'Não é aquele que ficava pedindo esmola?' 9Uns
diziam: 'Sim, é ele!' Outros afirmavam: 'Não é ele, mas alguém parecido com
ele.' Ele, porém, dizia: 'Sou eu mesmo!' 10Então lhe perguntaram: 'Como
é que se abriram os teus olhos?' 11Ele respondeu: 'Aquele homem
chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: 'Vai a Siloé e
lava-te'. Então fui, lavei-me e comecei a ver.' 12Perguntaram-lhe:
'Onde está ele?' Respondeu: 'Não
sei.'
13Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido
cego. 14Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e
aberto os olhos do cego. 15Novamente, então, lhe perguntaram os
fariseus como tinha recuperado a vista. Respondeu-lhes: 'Colocou lama sobre
meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!' 16Disseram, então, alguns
dos fariseus: 'Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.' Mas
outros diziam: 'Como pode um
pecador fazer tais sinais?' 17E havia divergência entre eles. Perguntaram
outra vez ao cego: 'E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?' Respondeu:
'É um profeta.' 18Então, os judeus não acreditaram que ele tinha
sido cego e que tinha recuperado a vista.
Chamaram
os pais dele 19e perguntaram-lhes: 'Este é o vosso filho, que dizeis
ter nascido cego? Como é que ele agora está enxergando?' 20Os seus
pais disseram: 'Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego. 21Como
agora está enxergando, isso não sabemos. E quem lhe abriu os olhos também não
sabemos. Interrogai-o, ele é maior de idade, ele pode falar por si mesmo.' 22Os
seus pais disseram isso, porque tinham medo das autoridades judaicas. De fato,
os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era
o Messias. 23Foi por isso que seus pais disseram: 'É maior de idade.
Interrogai-o a ele.'
24Então, os judeus chamaram de novo o homem que
tinha sido cego. Disseram-lhe: 'Dá glória a Deus! Nós sabemos que esse homem é
um pecador.' 25Então ele respondeu: 'Se ele é pecador, não sei. Só
sei que eu era cego e agora vejo.' 26Perguntaram-lhe então: 'Que é
que ele te fez? Como te abriu os olhos?' 27Respondeu ele: 'Eu já vos
disse, e não escutastes. Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis
tornar-vos discípulos dele?' 28Então insultaram-no, dizendo: 'Tu,
sim, és discípulo dele! Nós somos discípulos de Moisés. 29Nós
sabemos que Deus falou a Moisés, mas esse, não sabemos de onde é.' 30Respondeu-lhes
o homem: 'Espantoso! Vós não sabeis de onde ele é? No entanto, ele abriu-me os
olhos! 31Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele
que é piedoso e que faz a sua vontade. 32Jamais se ouviu dizer que
alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33Se este homem
não viesse de Deus, não poderia fazer nada'. 34Os fariseus
disseram-lhe: 'Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?' E
expulsaram-no da comunidade.
35Jesus
soube que o tinham expulsado. Encontrando-o, perguntou-lhe: 'Acreditas no Filho
do Homem?' 36Respondeu ele: 'Quem é, Senhor, para que eu creia
nele?' 37Jesus disse: 'Tu o estás vendo; é aquele que está falando
contigo.' Exclamou ele: 38'Eu creio, Senhor'! E prostrou-se diante
de Jesus. 39Então, Jesus disse: 'Eu vim a este mundo para exercer um
julgamento, a fim de que os que não vêem, vejam, e os que vêem se tornem
cegos.' 40Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isto e lhe
disseram: 'Porventura, também nós somos cegos?' 41Respondeu-lhes
Jesus: 'Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: 'Nós vemos', o
vosso pecado permanece.' Palavra da Salvação. COMENTÁRIO
Continuando a série de leituras evangélicas que procuram ensinar verdades sobre a pessoa e a missão de Jesus durante a Quaresma, o texto de hoje é novamente um texto comprido, um capitulo inteiro, tirado do Evangelho de João. Como no Domingo passado (A Samaritana), encontramos traços característicos do Quarto Evangelho – o uso de dualismo, como luz/escuridão, cegueira/visão, de símbolos, de ironia e de mal-entendidos. Tudo para proclamar a fé da comunidade joanina que Jesus era “a luz do mundo”(v.5).
O texto nos traz o único relato no Novo Testamento da cura de um cego de nascença. Agostinho via na cegueira uma referência ao pecado original, e na passagem da cegueira à visão, o símbolo da passagem da incredulidade e da morte à fé e à vida. Assim, o cego curado simboliza todos os que chegam à plenitude da fé pelo batismo.
Usando a sua característica de jogo de palavras, o autor do Quarto Evangelho enfatiza o nome da piscina onde ocorre a cura – Silóe, que significa “enviado”. Em mais uma alusão à liturgia batismal, João insiste que a cura da cegueira mortal ocorre através de Jesus – O Enviado do Pai. Na arte das catacumbas, a cura do cego simboliza o batismo.
Analisando as etapas da história, podemos encontrar uma progressão na fé do cego, através de três interrogatórios. Ele é interrogado pelos vizinhos (vv. 8-12), pelos fariseus (vv. 13-34) e pelo próprio Jesus (vv. 35-41). A cada passo ele aprofunda o seu conhecimento de Jesus. Aos vizinhos ele responde que Jesus é simplesmente um homem. Diante dos fariseus, ele reconhece que Jesus é um profeta. No diálogo com Jesus ele chega a proclamar que Jesus é o Filho do Homem, a grande figura messiânica do Livro de Daniel e do livro apócrifo de Enoc, o enviado de Deus.
A historia reflete algo da situação da comunidade joanina pelo fim do primeiro século. Pois, no tempo de Jesus, ninguém era expulso da comunidade judaica por acreditar no seu messianismo. Isso acontecia após 85 a.C., com a reconstituição do judaísmo na sua forma farisaica e rabínica, após a destruição de Jerusalém. Por isso, a confissão da sua fé em Jesus custa ao curado a perseguição, situação vivida pela comunidade joanina. Mas, se custou a expulsão da comunidade judaica, também lhe trouxe a verdadeira luza da vida, a vida plena em Jesus.
O último parágrafo usa a ironia, tipicamente joanina. Os fariseus perguntam cinicamente a Jesus, se ele os considera cegos. Ele retruca que a situação deles é muito pior – não é que não possam ver, é que não querem ver! A história iniciou-se com uma declaração, contrariando opiniões de muitos mestres da Lei daquela época, que a cegueira física não é causada pelo pecado (v.3). Termina afirmando que a cegueira pior, a espiritual, realmente é conseqüência do pecado. A missão de Jesus no mundo causa uma inversão de situações: os que estão cegos, mas que chegam à fé, são curados e recebem a revelação da Luz do mundo, enquanto aqueles que se ufanam de ser os esclarecidos se fecham nos seus sistemas religiosos e ideológicos, mergulhando-se cada vez mais na trevas e na perdição.
Quanta cegueira em nosso mundo, diante de situações cada vez mais gritantes da exclusão e sofrimento! Basta ver a nossa indiferença diante da situação do nossa planeta, sendo lentamente destruído e nome de um pretenso progresso, que na verdade não é mais do que a busca desenfreada de lucro para uma elite.. Quantas vezes a fé em Jesus é proclamada como se fosse somente uma série de dogmas, em lugar do seguimento daquele que é “Luz do mundo”. O nosso encontro com O Enviado tem que iluminar os olhos da nossa mente e espírito, para que vejamos o mundo com os olhos de Jesus, e tornemos a nossa fé uma vivência da mística do seguimento dele, continuando a missão de Jesus que disse “enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”.
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