segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Festa de Todos os Santos - Ano A

Refletindo o Evangelho do Domingo

Pe. Thomaz Hughes, SVD

FESTA DE TODOS OS SANTOS

Mt 5, 1-12a
“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus”

Esses primeiros versículos de Cap. 5 servem ao mesmo tempo como introdução e resumo do Sermão da Montanha. Nos apresentam um retrato das qualidades do verdadeiro discípulo, daquele que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente - tanto a do tempo de Jesus, como de hoje. Embora de uma forma menos contundente do que Lucas (Lc 6, 20-26), o texto de Mateus deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical na nossa maneira de pensar e viver.
Enquanto os Dez Mandamentos proclamam os deveres da humanidade em relação aos direitos de Deus (oito proibições e duas obrigação a serem observados pelo povo), as bem-aventuranças proclamam os direitos da humanidade em relação aos deveres de Deus... e é Ele que estabelece para nós o direito ao Reino dos Céus, dom gratuito d’Ele, no consolo, na misericórdia, na justiça e na contemplação da face d’Ele.
Isso não nos garante vida sem sofrimento; mas, nos dá um olhar diferente, capaz de perceber o futuro, já sendo construído, e experimentar em nossa vida cotidiana a graça que garante a fidelidade generosa. Nada é proibido neste texto, mas Deus mesmo assume compromisso com a humanidade.   
O Sermão da Montanha não pode ser visto fora do contexto do Reino. Hoje, sabemos que o Sermão da Montanha, que Mateus apresenta como o primeiro dos seus cinco discursos, é uma composição de muitos dizeres de Jesus. Mateus os teceu juntos em um texto coerente. Temos que imaginar cada um desses dizeres como resumo de algo como uma discussão, ou sermão, ou algum ensinamento importante, que talvez fosse resposta a uma pergunta feita. Esses ditados isolados foram primeiro reunidos dentro do Sermão da Planície na tradição oral. Disso, por sua vez, o Sermão da Planície de Lucas, e o Sermão da Montanha de Mateus se desenvolveram. Chama-se o Sermão da Montanha porque Jesus proclamou a mensagem e as normas da Nova Aliança de um local elevado. Como Moisés, que, de uma montanha proclamou os dez mandamentos que formaram a base do Antigo Testamento, agora Jesus proclama os mandamentos que construirão os alicerces da Nova Aliança. Lucas tem o Sermão da Planície, que parece ser uma versão anterior do Sermão das Montanha. É mais resumido e difere de uma maneira significante da versão de Mateus.
            Um primeiro elemento que chama a atenção no texto de hoje é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo no presente - o Reino já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça - na verdade as mesmas pessoas, pois os que buscam a justiça são “pobres em espírito”. Eles já vivem a dependência total de Deus, pois só com Ele esses valores podem vigorar. Mas, quem luta pela justiça será perseguido - e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre em espírito”.
            As outras bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito. É aflito, por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista. É manso, não no sentido de passividade, mas porque não é movido pelo ódio e violência que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos. Encarna o paradoxo da força transformadora da não violência, tão bem vivenciado por pessoas tão diferentes como Jesus de Nazaré, Gautama Buddha, Francisco de Assis, Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Dom Helder Câmara e Dom Oscar Romero, entre outros - pessoas que tiveram uma influência determinante sobre o mundo, enquanto os violentos passam esquecidos ou escoriados nas pegadas da história.
            Têm fome da justiça do Reino, não a dos homens, que tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e do privilégio, uma desordem institucionalizada, como tantas vezes presenciamos no Brasil. Possui coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o mundo dá” (Jo 14, 27), mas o “shalom”, a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino. O “Shalom” existe quando há o bem-estar total para todos/as.
            Mas, Jesus deixa clara a consequência de assumir esse projeto de vida - a perseguição! Pois um sistema baseado em valores anti-evangélicos não pode aguentar quem a contesta e questiona, algo que a história dos mártires do nosso continente testemunha muito bem. Qualquer Igreja cristã que é bem aceita e elogiada pelo sistema hegemônico precisa se questionar sobre a sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio (testemunho) é pedra-de-toque dessa fidelidade. Podemos agradecer a Deus pelo testemunho profético das bem-aventuranças que nos foi dado, por exemplo, pela Irmã Dorothy Stang pelo Bispo Frei Luiz Cappio, bem como o das vidas de tantos Santos e Santas que nunca vão receber a honra dos altares, mas que são consagrados como tais na memória de nosso povo.


 

sábado, 1 de outubro de 2011

31° Domingo Comum - Ano A

Refletindo o Evangelho do Domingo

Pe. Thomaz Hughes, SVD

TRIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO COMUM - Ano A

Mt 23, 1-12

“O maior dentro vós será vosso servo”

 
   
O capítulo 23 de Mateus funciona como um tipo de dobradiça, que termina a série de parábolas de julgamento e as controvérsias com as lideranças judaicas, que se iniciaram em 21, 23, e ao mesmo tempo introduz o último grande discurso, o da parusia, de Cap. 24-25. Contém algumas das linhas mais virulentas da Bíblia, palavras que - embora colocadas na boca de Jesus - refletem o ambiente polêmico de condenação mútua que existia entre a comunidade mateana e a liderança farisaica da sinagoga, especialmente depois de 85 d.C., quando as duas comunidades estavam engajadas em uma luta pela hegemonia do judaísmo, depois da destruição do Templo de Jerusalém.
    É necessário entender que a comunidade de Mateus era formada quase totalmente por cristãos judeus, que se entenderam dentro do judaísmo. Porém, no esforço de reconstruir o judaísmo depois do desastre de 70 d.C., quando Jerusalém foi destruída, os fariseus assumiram a liderança e quiseram impor a sua interpretação da Lei sobre as sinagogas. A comunidade de Mateus rejeitava essa pretensão e assim entrou em conflito aberto com a liderança farisaica do judaísmo formativo. É esse ambiente de polêmica e acusação mútua que está subjacente aos textos do capítulo 23.
    Diferente da comunidade de Marcos ou de Lucas, a de Mateus se preocupa ainda com a vivência da Lei - mas, rejeita a interpretação farisaica, que classifica como “amarrar fardos pesados” (v. 4). Desautoriza os fariseus, não pelo que falam, mas pelo que vivem - e adverte os membros da comunidade contra a tentação de praticar atos religiosos externos, para serem louvados pelos outros, e também contra o perigo de assumir títulos para se vangloriarem. Volta a insistir, como em outros trechos dos evangelhos, na necessidade de ser “grande” através do serviço aos irmãos.
 Mesmo tirando o contexto polêmico histórico, que não vale para hoje, as palavras do nosso texto são atuais para os nossos dias. Pois, as tentações do poder e de prestígio são perenes! Se Mateus sentiu a necessidade de advertir os seus membros contra esses perigos, sem dúvida foi porque muita gente estava gostando dos elogios e títulos e descuidando do serviço humilde. Vale para nós hoje - e especialmente para quem tem qualquer liderança ou posição de destaque nas comunidades eclesiais! Todos esses ministérios existem para o serviço, e não para a glória própria.
Quanta correria às vezes atrás de títulos e rótulos, de manifestações externas de importância e prestígio! Por isso, o evangelho nos lembra que nosso único mestre é Jesus! Ele que mais provou, pela palavra e pela vida, que “o maior dentre vos será o vosso servo; todo aquele que se exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha, será exaltado” (v. 12). Essas palavras combatem qualquer abuso de poder, mesmo incipiente, que eventualmente se acha entre as nossas lideranças, sejam elas ordenadas ou leigas. Todos nós somos sujeitos a cair nessa tentação. Que Jesus seja o nosso exemplo!

 

30° Domingo Comum - ano A


Refletindo o Evangelho do Domingo

Pe. Thomaz Hughes, SVD

TRIGÉSIMO DOMINGO COMUM - Ano A

Mt 22, 34-40

 

“Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”

Oração do dia
Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Evangelho (Mateus 22,34-40)

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus.
22,34 Sabendo os fariseus que Jesus reduzira ao silêncio os saduceus, reuniram-se
35 e um deles, doutor da lei, fez-lhe esta pergunta para pô-lo à prova:
36 “Mestre, qual é o maior mandamento da lei?”
37 Respondeu Jesus: “‘Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito’.
38 Este é o maior e o primeiro mandamento.
39 E o segundo, semelhante a este, é: ‘Amarás teu próximo como a ti mesmo’.
40 Nesses dois mandamentos se resumem toda a lei e os profetas”.
Palavra da Salvação.

Comentário ao Evangelho

Hoje, temos mais uma das controvérsias do Capítulo 22, esta vez com os fariseus. De novo, a pergunta feita por um legista não é para descobrir a verdade, mas para armar uma cilada para Jesus - o verbo traduzido aqui como “para O pôr à prova” é o mesmo usado em v. 22, 8 (“armar cilada”). O que seria o maior mandamento era discutido entre as diversas escolas rabínicas da época - para alguns o maior era o amor a Deus, para a maioria era a observância do sábado. O Antigo Testamento enfatiza a importância de amar a Deus e de amar o próximo (Lv 19, 18 e Dt 6, 5). A originalidade de Jesus está no fato de Ele assemelhar um ao outro, dando-lhes igual importância e, sobretudo, na simplificação e concentração da Lei (que tinha 613 mandamentos) em esses dois elementos. A colocação de Jesus exige uma forma correta de amor próprio - não de egoísmo, mas de auto-respeito. A ligação íntima dos dois mandamentos não é atestada antes de Jesus e marca um avanço moral importante.
Mais uma vez Jesus desloca o eixo da questão, como fez domingo passado na passagem sobre o imposto a César. Esta vez Ele se recusa a entrar em discussões fúteis sobre leis, para enfatizar o papel central do amor - tanto a Deus como ao próximo.
É importante frisar que o “amor” de que Jesus fala não é um mero sentimento ou emoção, como muitas vezes ocorre na linguagem de hoje. O amor é uma atitude de vida, uma fidelidade à Aliança com Deus, uma vivência solidária com os irmãos e irmãs. Obviamente, não é possível simpatizarmo-nos com cada pessoa, nem gostar de cada pessoa. Mas, é possível superar antipatias e aversões, na caminhada da construção do projeto de Deus para o nosso mundo.
A ligação essencial entre o amor a Deus e ao próximo torna-se muito urgente hoje em dia, quando se dá tanto espaço a pregações intimistas e formas alienantes de “espiritualidade”, que muitas vezes não passam de uma busca disfarçada de auto-realização, mas que jamais levam a um compromisso com a transformação da nossa realidade. A frase de Jesus desautoriza qualquer pregação religiosa que separa o amor a Deus do amor ao próximo - um amor não somente afetivo (que talvez muitas vezes nem possa ser), mas, efetivo - concretizando de maneira prática a solidariedade e a justiça.
O nosso texto nos adverte contra qualquer tendência alienante ou legalista - os mandamentos não são para serem discutidos, mas vividos no amor e no compromisso. Para os rabinos do tempo de Jesus, o mundo todo dependia da Lei, do serviço no Templo e dos atos de bondade. Mateus fez com que a própria Lei dependesse dos atos de amor solidário. Esse avanço feito por Jesus desafia a todos nós para que não caiamos na tentação perene de separar os dois aspectos do amor - não é possível amar a Deus sem que amemos o irmão, e o verdadeiro amor ao próximo brota do nosso amor a Deus.

Salmo 17/18

Eu vos amo, ó Senhor, sois minha força e salvação. 

Eu vos amo, ó Senhor! Sois minha força, 
Minha rocha, meu refúgio e salvador! 
Ó meu Deus, sois o rochedo que me abriga, 
Minha força e poderosa salvação. 

Eu vos amo, ó Senhor, sois minha força e salvação. 

Ó meu Deus, sois o rochedo que me abriga, 
meu escudo e proteção: em vós espero! 
Invocarei o meu Senhor: a ele a glória! 
E dos meus perseguidores serei salvo! 

Eu vos amo, ó Senhor, sois minha força e salvação. 

Viva o Senhor! Bendito seja o meu rochedo! 
E louvado seja Deus, meu salvador! 
Concedeis ao vosso rei grandes vitórias 
E mostrais misericórdia ao vosso ungido.

Eu vos amo, ó Senhor, sois minha força e salvação.